Clube de leitura
Porque ler é um prazer que deve ser partilhado
25 de Abril de 2011

"Não tem conta as vezes que me disseram: Livro, posso ler-te? Rio-me dessa gracinha com o umbigo"

 

 

De há uns tempos para cá comecei a descobrir a literatura portuguesa mais contemporânea. Tenho lido muitos livros mas, realmente, costumo falhar nos autores portugueses, só li o meu primeiro livro do nosso Prémio Nobel há muito pouco tempo. Umdia li um artigo sobre dois autores da minha geração e, ambos, vencedores do Prémio Saramago e fiquei curiosa. Primeiro arrisquei no João Tordo e já li 2 ou 3 títulos dele.

Agora debrucei-me pela obra de José Luís Peixoto.Adquiri o "Livro" há algum tempo mas só o li agora. Dá que pensar que escritor é esse que tem a ousadia de dar o título de "Livro" a um livro seu. E a justificação para este título é tão inesperada que eu nunca adivinharia. O autor começa por descrever cenas da vida de uma aldeia do interior do país e atravessa várias épocas desde os anos 40 até aos anos 60. Algumas descrições são tão explicitas que até impressionam (até há um episódio que se tornou em mais uma razão para não comer papas de sarrabulho!). José Luís Peixoto mostra essa portugalidade já há muito esquecida e utiliza expressões e palavras deliciosas que eu já nem me lembrava que existiam.

A partir dos anos 60, a acção transfere-se para Paris já que um dos pontos centrais do "Livro" é a saga dos emigrantes portugueses por terras de França e depois também as várias vindas de férias ao país natal, as casas que constroem, os maços de notas nas mãos. Gostei muito desta parte já que corresponde à imagem que eu também tenho da emigração portuguesa dos anos 60 e seguintes. O contraste entre esta primeira parte do "Livro" e a segunda parte, bastante mais erudita, é fantástico como se a intenção fosse mostrar como as gerações foram evoluindo. Uma escrita que não é, de modo nenhum, linear e um livro que leva algum tempo a ler. É preciso ir digerindo a pouco e pouco mas gostei tanto que já estou a ler mais outro livro dele, desta feita um livro de contos com histórias, imagino eu, baseadas nas histórias de vida da sua Galveias natal.

 

"O momento de ligar a telefonia. Era uma máquina que impunha respeito. Quando se aproximavam dela, os homens metiam as mãos nos bolsos. Era impossível imaginar a quantidade de turbinas que existiam dentro daquela máquina estrangeira. Em vez de fazerem uma bomba, fizeram isto, pensava a velha Lubélia. O único homem que tocava na máquina, que a compreendia, era um indivíduo baixo, careca, que atendia ao balcão da Casa do Povo. Os seus dedos brancos, pouco sol, rodavam os botões da telefonia com uma elegância geométrica. A máquina uivava um gemido que se enfiava nos ouvidos, depois começava a rugir, depois afinava-se na voz de um locutor, a articular muito bem as palavras , a anunciar pastas de dentes, licores, e a apresentar artistas. A velha Lubélia consolava-se com o momento de ligar a telefonia. Seguia cada gesto e cada posição do homem que a ligava. À maneira de uma mulher de quase setenta anos, à sua maneira, desejava-o sexualmente."

 

 

Publicado originalmente nas Leituras da Stiletto

publicado por Charneca em flor às 18:46 link do post
É este "Livro" que está agora na minha mesa de cabeceira. Gosto da forma como escreve, uma narrativa um pouco poética acho. Já li imensos poemas dele, e algumas crónicas que costuma escrever para a Visão e o Jornal das Letras. Acho que é um escritor dos melhores que temos por cá, e que tendo vindo a crescer notoriamente, e é bom que também saibamos apreciar do bom que temos por cá =)
Books Lovers a 28 de Abril de 2011 às 21:52
Gosto muito dos livros de José Luís Peixoto, mas eu acho que não sou que escolho o livro que quero ler, mas sim são os livros que me escolhem, tenho o cemitério de pianos e o livro de José Luís Peixoto na prateleira para ler...E espero pelo dia que me vai apetecer ler...
Normalmente dou prioridade aos autores portugueses...
Agora estou a ler Além Tejo de Catarina Araújo Pereira
Milheiras a 15 de Agosto de 2011 às 15:49
Gostei de ler, e de algumas memórias que também são as minhas. Esperava outro final...
na primeira pessoa do singular a 29 de Agosto de 2011 às 17:55
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