Clube de leitura
Porque ler é um prazer que deve ser partilhado
09 de Novembro de 2011

 

Para começo de conversa, tenho a dizer que embirro com o José Rodrigues dos Santos. Não compreendo como é que ele tem tempo de escrever um romance de 600 e tal páginas todos os anos e ainda conseguir trabalhar na RTP. Para além disso, pareceu-me que os livros "A Formula de Deus" e o "Sétimo Selo" foram publicados para aproveitar a moda das histórias de conspiração de Dan Brown e similares. Também não percebo a necessidade de pegar em temas religiosos e polémicos. No entanto, li uma reportagem na revista "A Volta ao Mundo" sobre este livro e a viagem que José Rodrigues dos Santos fez a Moçambique e fiquei muito curiosa. O livro já estava cá em casa desde o natal passado mas só li agora. Fiquei agradavelmente surpreendida. José Rodrigues dos Santos coloca neste romance, a sua alma, as suas recordações da infância em Moçambique, as lembranças do pai que  foi médico em Moçambique onde fundou o Serviço Médico Aéreo levando os cuidados de saúde às aldeias mais recôndidas de Moçambique.

 

A figura central é o médico José Branco, baseado, como já disse, no pai do próprio autor. Ao longo do romance vamos acompanhando todo o percurso de vida, a infância e adolescência em Penafiel, a vida académica em Coimbra até culminar com o exercício da medicina em Moçambique. Também presente está a Guerra Colonial e a Ditadura, a Pide, o racismo e a falta de liberdade de expressão. A parte que tem mais, intimamente, a ver com a Guerra é um pouco chocante mas faz sentido porque  conduz a um dos mais terríveis segredos da Guerra Colonial. Li, do princípio ao fim, com o mesmo interesse e fiquei cheia de pena quando acabou. Um importante documento ficcional que traz, aos dias de hoje, um pouco da nossa História recente.

 

«A viagem do aeroporto, situado em Chingodzi, até Tete foi relativamente curta, mas demorada. A estrada era de terra  batida avermelhada. Parecia pó de tijolo, varrida por sucessivas nuvens de poeira que as viaturas erguiam a caminho da cidade, como se os pneus fossem tubos de escape. A paisagem apresentava-se plana e seca, dominada por árvores gigantes com enormes raízes e troncos largos e rudes, que davam a impressão de músculos em esforço. As copas estavam despidas, com os ramos nus espetados em todas as direcções; parecia um emaranhado de arames. Os dois Brancos nunca tinham visto coisa igual.

 "Que árvores são estas?", quis saber Mimicas.

O inspector ixou a atenção numa árvore monumental mesmo ao lado da estrada.

"Embondeiros"»

publicado por Charneca em flor às 12:04 link do post
Eu não me faz confusão nenhuma ele escrever livros de 600 ou mais páginas, quando trabalha também na RTP e ainda dá aulas na Universidade Nova. Fazem-me mais confusão as duas últimas, apesar de saber que ele não tem um horário muito alargado na Universidade Nova. Porque para quem gosta de escrever e tem prazer nisso, a escrita flui. Eu sou uma dessas pessoas. Quando andava no 10º, 11º e 12º anos, enquanto a turma foi a mesma, passei os anos a escrever pequenas "novelas satíricas", em que as personagens éramos nós, colegas e amigos, professores, enfim... Eram coisas cómicas que só um grupo é que entendia, porque eram precisamente situações satirizadas e caricaturadas da vida real e das características das pessoas e quem não conhecesse aquelas pessoas, não percebia o sentido. Mas para nós, que conhecíamos as pessoas (os nomes eram ligeiramente alterados também no sentido satírico) as histórias faziam rir as pedras. Toda a gente me perguntava como é que eu conseguia escrever aquilo tudo (era mais ou menos uma por mês), ter tanta imaginação e conciliar com as aulas e até ter boas notas. Mas para mim aquilo fluía e era a coisa mais natural do mundo, parecia que nem me levava tempo nenhum e o que levava era com puro prazer. Já reparei que o José Rodrigues dos Santos é assim também. Para ele, escrever não custa. Claro, tem que ter material para se basear, mas isso também eu tinha que ter: os comportamentos e atitudes dos meus colegas no último mês (eu entrava também e satirizava-me também a mim mesma lol). Mas escrever aquilo era facílimo. E não me recordo que tivesse que puxar muito pela imaginação. Aquilo saía. Já passaram uns bons anos, mas ainda hoje, quando me ponho a escrever, é-me difícil parar.
Dos livros dele, o único que ainda não li é precisamente O Anjo Branco. Sou super fã dele, mas quando o livro saiu, o ano passado, a minha vida/família estava a passar por um drama muito grande e eu não conseguia ler. Esse drama, infelizmente, ainda se mantém, mas passei a encarar a leitura como uma bálsamo, uma ajuda. Espero ler O Anjo Branco brevemente. Queria ver se o comprava antes do Natal. Entretanto, já tenho e já li "O Último Segredo", que achei excelente, mas eu sou suspeita, porque acho os livros dele todos excelentes, nem que seja pela maneira de ele escrever, que acho extraordinária. A nível linguístico/sintático, dali não se tira nem se põe nem mais nem menos uma vírgula. Ele sabe escrever e bem.
São Palma a 10 de Novembro de 2011 às 13:16
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