Clube de leitura
Porque ler é um prazer que deve ser partilhado
13 de Março de 2011

 

Nunca tinha lido nada de José Eduardo Agualusa embora, de algum tempo para cá, tenha alguma curiosidade pelos escritores africanos como Agualusa ou Mia Couto. Comecei a ler a medo mas foi uma boa aposta. O livro não é muito grande (184 páginas apenas) e lê-se muito bem desde que se leia com disciplina e atenção já que não se trata de um relato linear. Capítulos do enredo alternam com capítulos que contam lendas africanas, relatos de sonhos e histórias longinquas no tempo. Agualusa escreve de uma maneira muito divertida. O fulcro desta história é a pesquisa de novas palavras, neologismos, na língua portuguesa. Nesta busca acompanhamos o percurso de Iara, uma jovem linguista portuguesa, à procura da origem destes neologismos. Iara conta com a ajuda de um velho professor angolano e anarquista. Como diz na sinopse, "Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando."

Tendo em conta o cenário actual da língua portuguesa, com o tão falado Acordo Ortográfico, esta história prova que uma das riquezas da língua portuguesa é a sua diversidade, as várias maneiras de falar português em Portugal, nos vários países africanos ou no Brasil. A meu ver, este (des)Acordo vai retirar inocência à nossa língua obrigando-nos a escrever todos da mesma maneira. Não sei se Agualusa escreveu esta história a pensar nestas discussões sobre o Acordo mas foi isso que eu li nas entrelinhas e essa conclusão é da minha responsabilidade, evidentemente.

 

"Volto a estudar a lista. Vinte e três palavras, todas elas polidas e perfeitas, lúcidas, evidentes, e - sobretudo - imprescindíveis.

São palavras tão familiares, ou melhor, soam tão familiares, que não parecem neologismos, diz-me Iara. As pessoas ouvem-nas, e ficam convencidas de que sempre as utilizaram."

 

"Levou-o este necromante à Vila de Massangano, onde o apresentou a uns pássaros de voo lento e trabalhoso, forte penagem verde e azul, e uma crista púrpura na cabeça, à maneira do solidéu dos cardeais, mostrando-se tais pássaros muito àgeis nos pensamento e hábeis no falar. A partir de várias conferências com os referidos pássaros doutores, que os nativos chamam onduvas, reuniu Moisés da Conceição uma colecção de palavras extravagantes, de muita serventia, segundo me confidenciou o índio Mariano, para a boa iluminação das nações que habitam este país e, mais do que isso, da natureza da vida e dos seus maiores."

 

Post publicado originalmente em Leituras da Stiletto

publicado por Charneca em flor às 21:33 link do post
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