Clube de leitura
Porque ler é um prazer que deve ser partilhado
30 de Julho de 2012

"A Sombra do Vento é um mistério literário passado na Barcelona da primeira metade do século XX, desde os últimos esplendores do Modernismo até às trevas do pós-guerra. Um inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, num crescendo de suspense que se mantém até à última página" segundo diz na sinopse.

 

Uma história maravilhosa de um autor catalão que acabei de descobrir. Um livro com outro livro dentro. Uma história sobre como um livro pode mudar a vida de alguém. A história ideal para quem adora livros como eu, ou devo dizer, para quem é obcecada por livros como eu?!

Grande parte do "cenário" é uma livraria mais propriamente um alfarrabista mas passa também por um sítio especial  O Cemitério dos livros esquecidos.  E é nesse local mágico que tudo começa, quando o Sr. Sempere aí conduz Daniel, a personagem principal desta história:

 

" - Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês.tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor,de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel"

 

Nesse lugar Daniel descobre um livro e descobre um autor misterioso. A partir daí empreende numa busca, muitas vezes perigosa, por esse homem e pela sua história. 

Uma obra para quem ama os livros, sem dúvida nenhuma.

 

 

Originalmente publicado aqui

publicado por Charneca em flor às 09:49 link do post
04 de Maio de 2012

Este livro já não é uma novidade, antes pelo contrário. A edição é de 1994. Desde que li "A soma dos dias" que desejava ler este. Aliás li-os pela ordem inversa. "A soma dos dias" começa precisamente, onde este termina. "Paula" foi escrito durante 1 ano pela autora durante o tempo em que a filha permaneceu em coma em sequência de uma doença grave que a afectava. Durante as longas horas em que Isabel Allende esperava que a filha acordasse foi escrevendo a sua história de vida e a dos seus familiares mais próximos. Este livro é, ao mesmo tempo, o relato da dor de uma mãe pelo sofrimento da filha e um relato bibliográfico da vida intensa de Isabel Allende que se cruza com a história do seu país, o Chile. Não é um livro fácil porque sofremos com a autora, emocionamo-nos com o amor e dedicação do jovem marido de Paula e participamos da revolta inicial e depois da progressiva aceitação da situação em que Paula se encontra. Apesar de tudo vale a pena ler mas só se tivermos um coração forte. Acredito que haja quem não seja capaz de lê-lo até ao fim.

 

 

"Tento não cair em sentimentalismos, que tanto horror te provocam, filha, mas terás de desculpar-me se de repente me vou abaixo. Estarei a ficar louca? Não dou pelos dias, não me interessam as notícias do mundo, as horas arrastam-se penosamente numa espera eterna. O momento de te ver é muito breve, mas o tempo gasta-me aguardando-o"

 

" Eu pensei então que há séculos imemoriais que as mulheres perderam filhos, que é a dor mais antiga e inevitável da humanidade. Não sou a única, quase todas as mães passam por essa provação, quebram-se-lhes os corações, mas continuam a viver porque têm de proteger e amar aqueles que ficam."

 

 

Post originalmente publicado aqui

publicado por Charneca em flor às 21:55 link do post
23 de Fevereiro de 2012

Já se sabe que quando um livro é adaptado para cinema há sempre alguma coisa que se perde. Obviamente que adaptação não quer dizer que o filme tenha de ser exactamente igual ao livro. A história escrita é sempre mais rica de pormenores do que um filme até porque o que resulta escrito pode não resultar em cinema. A mim acontece-me, como à maioria das pessoas que gostam de livros provavelmente, nunca gostar dos filmes que resultam de livros que eu já li. Uma coisa é aquilo que eu vejo, no livro, o que eu imagino e outra coisa é aquilo que o realizador e o argumentista viram naquela mesma obra. Então agora tenho feito o caminho ao contrário, se vir um filme que me marca de alguma maneira, vou à procura do livro que lhe deu origem. Sempre é uma maneira de conhecer melhor as personagens e a história. E foi isso que eu fiz depois de ter visto este "Os homens que odeiam as mulheres". Ainda não conhecia os livros e o filme foi uma oportunidade de tomar contacto com este autor sueco que morreu antes de publicar os seus livros (uma trilogia da qual, este é o primeiro livro) e já não viu o sucesso e a loucura que as suas histórias desencadearam por todo o mundo. 

A história anda à volta da figura de um jornalista, Mikael Blomkvist, cuja vida profissional dá uma reviravolta depois da publicação de um artigo sobre um financeiro, da qual resulta um processo por difamação. Blomkvist é condenado a uma pena de prisão e ao pagamento de indemização. Ele decide afastar-se da revista onde trabalha e acaba por ir trabalhar para um velho industrial, Henrik Vanger. Este homem tinha estado muitos anos à frente de uma empresa familiar mas a sua vida foi ensombrada pelo estranho desaparecimento da sua sobrinha mais querida. Blomkvist vai trabalhar com Vanger, alegadamente, para escrever a biografia da família Vanger mas o verdadeiro motivo da sua presença junto de Vanger é descobrir o que aconteceu à sobrinha há quase 40 anos. Para deslindar esse mistério, ele acaba por contar com a ajuda de uma investigadora suigeneris, Lisbeth Salander. cujos métodos de trabalho não os mais ortodoxos. Ao longo da história são abordados tem como os crimes económicos e a violência contra as mulheres. Uma história densa, sombria e até sangrenta que nos surpreende a cada virar de página. 

Neste pequeno excerto, pode-se ler a resposta de uma das personagens a uma pergunta feita por Mikael Blomkvist:

 

"- Foi uma escolha que fiz. Podia discutir os aspectos morais e intelectuais daquilo que faço, podíamos falar a noite inteira, mas isso não mudaria nada. Tente ver as coisas da seguinte maneira: um ser humano é uma casca feita de pele que mantém as células, o sangue e os componentes químicos nos respectivos lugares. Muito poucos acabam nos livros de História. A maior parte das pessoas sucumbe e desaparece sem deixar rasto."

 

Post originalmente publicado aqui

publicado por Charneca em flor às 09:40 link do post
13 de Janeiro de 2012

 

 

 

Por sugestão de Carlos Manuel Lopes da Silva no blogue Clube de Leitura, resolvi ir à procura do livro que se segue ao "Em busca do carneiro Selvagem". E é este "Dança, Dança, Dança". Ainda gostei mais deste livro do que do primeiro. Talvez tenha sido por já estar mais familiarizada com o universo de Marukami. Ou pela história ainda mais cativante e fantástica tocando o suspense.. Ou pela riqueza das personagens ou pelas referências musicais ainda mais constantes. A personagem principal, e narrador, é um homem solitário na casa dos 30. A história inicia-se com a necessidade deste homem ir à procura da sua namorada da qual se desencontrou no livro anterior. Esta procura condu-lo, novamente, ao misterioso Hotel Golfinho.

Esta busca real transforma-se numa busca espiritual de si mesmo, do sentido da sua vida e de como há-de construir a sua vida. Uma história detectivesca mas também uma história de amizade e amor. Mais um romance brilhantemente escrito por Haruki Murakami

 

 

"Passo a vida a sonhar com o Hotel Golfinho.

Nos meus sonhos, sinto  que faço parte do hotel. Que é como quem diz, esses sonhos revelam claramente que tenho com ele uma relação sem a qual não poderia existir, como se o hotel fosse uma espécie de prolongamento do meu ser. A imagem apresenta-se-me distorcida, mostrando um edifício alongado no sentido do comprimento. Mais parece uma imensa ponte coberta, que se estende de um passado distante até aos confins do mundo. E eu faço parte desse cenário. Há ainda alguém que chora, e essas lágrimas são por minha causa.

O hotel envolve o meu corpo. Consigo sentir nitidamente os batimentos do seu coração e o seu calor. Em sonhos, faço parte dele.

É assim, no meu sonho."

publicado por Charneca em flor às 09:58 link do post
06 de Dezembro de 2011

 

Tal como há uma escrita sul-americana influenciada peça cultura daquela região, há também uma maneira de contar histórias típica dos países asiáticos. Haruki Murakami é um escritor japonês muito aplaudido pela crítica que eu só descobri agora. "Em busca do carneiro selvagem" foi o primeiro livro que requisitei nestemeu regresso ao universo das bibliotecas, fruto da necessária contenção de gastos bem como da manifesta falta de espaço para continuar a dar largas à minha paixão pela leitura. a história desta procura de um carneiro muito especial é ao mesmo tempo real e fantástica. É difícil distinguir a acção propriamente dita da fantasia. Obviamente, Murakami é influenciado pela cultura japonesa mas também é tocado pela cultura norte-americana, literária ou musical, à qual faz muitas referências. Estamos perante um romance detectivesco onde a busca incessante pelo tal carneiro se confunde com a busca de um amigo do passado e a busca do sentido para a vida do narrador/personagem principal. Uma história onde há espaço para a atracção por umas orelhas perfeitas, um especialista em carneiros encerrado no quarto de um hotel e um verdadeiro homem-carneiro. Um livro difícil de largar até chegar à última página, ao desfecho final...

 

"a verdadeira razão pela qual eu não guardava as fotografias no fundo de uma gaveta prendiam-se com o visível fascínio que aquelas orelhas passaram a evercer sobre mim. Eram cem por cento perfeitas. Umas orelhas de sonho. (...) Uma das suas curvas, de uma ousadia inimaginável, rasgava a fotografia de alto a baixo, outras enrolavam-se em delicadas filigranas de luz formando sombras subtis, outras ainda havia que descreviam, como se uma antiga pintura mural se tratasse, inúmeras lendas de tempos antigos."

 

 

"O homem-carneiro vestia uma pele de carneiro que o cobria da cabeça aos pés. A vestimenta ajustava-se na perfeição ao seu físico atarracado, apesar de se ver a pele na zona dos braços e das pernas tinha sido cosida poeteriormente, em jeito de remendo. O capuz que lhe envolvia a cabeça também era feito de retalhos de pele, mas os chifres enrolados em espiral que lhe saíam do alto do crânio, esses eram verdadeiros. Duas orelhas achatadas, sem dúvida armadas com a ajuda de arame, projectavam-se horizontalmente dos lados do capuz."

publicado por Charneca em flor às 23:29 link do post
30 de Novembro de 2011

Venho, mais uma vez, falar de um livro de um dos melhores escritores portugueses da actualidade, José Luís Peixoto. Este "Cemitério de pianos" foi distinguido com o Prémio Cálamo Otta Mirada, como o melhor romance estrangeiro publicado em Espanha em 2007. Nas próprias palavras do autor (no autógrafo que me deu na Feira do Livro) esta é uma história "onde existe uma família infinita". Realmente este é uma história sobre as relações entre os membros de família, entre marido e mulher, pais e filhos ou entre irmãos. Uma história feita de amor mas também de violência e de momentos de solidão e de saudade. Um espaço que serve de fio condutor é o cemitério dos pianos que, mais tarde ou mais cedo, toca a vida de todas as personagens:

 

"Devagar, a claridade encheu todo o cemitério de pianos. A luz deslizou pelas superfícies de pó (...) havia pianos de todos os géneros que se ervuiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos (...) E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda mais pequeno e sem pés (...) O ar fresco do cemitério de pianos entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda."

 

A escrita de José Luís Peixoto não é, de modo nenhum, linear. Para o acompanhar temos que ter um ritmo de leitura alucinante porque tão depressa estamos no presente como logo encontramos o passado com os olhos postos no futuro. O texto é tão rico que é difícil destacar uma única passagem. Um dos "momentos" tocantes é este poema que surge a dada altura:

 

"na hora de pôr a mesa éramos cinco

 o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

 

 e eu, depois, a minha irmã mais velha

 casou-se, depois, a minha irmã mais nova

 

 casou-se, depois o meu pai morreu, hoje

 na hora de pôr a mesa, somos cinco,

 

 menos a minha irmã mais velha que está

 na casa dela, menos a minha irmã mais

 

 nova que está na casa dela, menos o meu

 pai, menos a minha mãe viúva, cada um

 

 deles é um lugar vazio nessa mesa onde

 como sozinho, mas irão estar sempre aqui

 

 na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco,

 enquanto um de nós estiver vivo, seremos

 sempre cinco."

 

 

Ou então a reflexão de uma das personagens, Francisco Lázaro, enquanto corre na maratona dos Jogos Olimpícos de Estocolmo:

 

"Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o ínicio:na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio (...) enquanto corro, fico parado dentro de mim e espero. Fico finalmente à minha própria mercê"

 

Um autor a não perder de vista.

publicado por Charneca em flor às 12:12 link do post
09 de Novembro de 2011

 

Para começo de conversa, tenho a dizer que embirro com o José Rodrigues dos Santos. Não compreendo como é que ele tem tempo de escrever um romance de 600 e tal páginas todos os anos e ainda conseguir trabalhar na RTP. Para além disso, pareceu-me que os livros "A Formula de Deus" e o "Sétimo Selo" foram publicados para aproveitar a moda das histórias de conspiração de Dan Brown e similares. Também não percebo a necessidade de pegar em temas religiosos e polémicos. No entanto, li uma reportagem na revista "A Volta ao Mundo" sobre este livro e a viagem que José Rodrigues dos Santos fez a Moçambique e fiquei muito curiosa. O livro já estava cá em casa desde o natal passado mas só li agora. Fiquei agradavelmente surpreendida. José Rodrigues dos Santos coloca neste romance, a sua alma, as suas recordações da infância em Moçambique, as lembranças do pai que  foi médico em Moçambique onde fundou o Serviço Médico Aéreo levando os cuidados de saúde às aldeias mais recôndidas de Moçambique.

 

A figura central é o médico José Branco, baseado, como já disse, no pai do próprio autor. Ao longo do romance vamos acompanhando todo o percurso de vida, a infância e adolescência em Penafiel, a vida académica em Coimbra até culminar com o exercício da medicina em Moçambique. Também presente está a Guerra Colonial e a Ditadura, a Pide, o racismo e a falta de liberdade de expressão. A parte que tem mais, intimamente, a ver com a Guerra é um pouco chocante mas faz sentido porque  conduz a um dos mais terríveis segredos da Guerra Colonial. Li, do princípio ao fim, com o mesmo interesse e fiquei cheia de pena quando acabou. Um importante documento ficcional que traz, aos dias de hoje, um pouco da nossa História recente.

 

«A viagem do aeroporto, situado em Chingodzi, até Tete foi relativamente curta, mas demorada. A estrada era de terra  batida avermelhada. Parecia pó de tijolo, varrida por sucessivas nuvens de poeira que as viaturas erguiam a caminho da cidade, como se os pneus fossem tubos de escape. A paisagem apresentava-se plana e seca, dominada por árvores gigantes com enormes raízes e troncos largos e rudes, que davam a impressão de músculos em esforço. As copas estavam despidas, com os ramos nus espetados em todas as direcções; parecia um emaranhado de arames. Os dois Brancos nunca tinham visto coisa igual.

 "Que árvores são estas?", quis saber Mimicas.

O inspector ixou a atenção numa árvore monumental mesmo ao lado da estrada.

"Embondeiros"»

publicado por Charneca em flor às 12:04 link do post
27 de Setembro de 2011

 

Este é já o terceiro livro que leio de Lesley Pearse. Esta autora escreve sempre sobre mulheres e mulheres muito fortes. Desta vez a heroina é Matilda Jennings e a acção conduz-nos desde os bairros mais miseráveis de Londres, em 1842, até aos Estados Unidos da América do início do século XX durante 783 páginas. Ao longo destas páginas acompanhamos a construção de um país já que atravessamos os pontos cruciais da História dos Estados Unidos da América, desde os primórdios de Nova Iorque passando  pela conquista do Oeste Selvagem pelos colonos em busca de terra, a corrida do ouro ou a Guerra entre o Norte e o Sul. No início da história, Matilde é uma simples vendedora de flores que, por um acto desinteressado, salva a vida de uma criança e esse momento muda a sua vida para sempre. Um romance, ao mesmo tempo histórico e épico, de amor, morte, lágrimas e alegria (como diz na contracapa). Um exemplo de que por maior que seja a dor, por maior que seja a queda, haverá sempre motivo para nos levantarmos. O volume do livro assusta, a princípio, mas prende-nos até ao último momento. 

Uma das frases mais marcantes desta história foi colocada, pela autora, na boca de Matilda: " Mas, acima de tudo, quero ter feito uma diferença na vida de outras pessoas", um excelente lema de vida.

 

 

Sinopse:

 "Aquele podia ter sido um dia como tantos outros na vida de Matilda, uma pobre vendedora de flores. Mas aquele é o dia em que Matilda salva a vida de uma criança e recebe a mais preciosa das dávidas: a oportunidade de fugir da mde iséria e construir uma nova vida. Em brevetrocará os bairros degradados de Londres pelos recantos misteriosos de Nova Iorque, as planícies do Oeste Selvagem e a febre do ouro em São Francisco. Munida apenas da sua coragem, beleza e inteligência, a jovem está apostada em ditar o seu destino, nem que para tal tenha de lutar contra tudo e todos. A sua rebeldia condena-a à solidão. Mas um dia também viverá as emoções de um verdadeiro amor.Um amor que terá de suportar a separação, a guerra e os tormentos do nascimento de uma nova nação. Será no Novo Mundoque Matilda vai aprender o que a sua infância não lhe ensinou: que todos nascem iguais, que a coragem e a generosidade são o que de mais nobre pulsa no coração humano, e que, por mais doloroso que seja, a vida tem de continuar e nunca se deve olhar para trás." 

publicado por Charneca em flor às 23:41 link do post
05 de Junho de 2011

 

Ultimamente tenho-me dedicado aos autores portugueses. No caso de João Tordo, primeiro li os livros mais recentes (um deles foi Prémio Literário José Saramago em 2008, "As Três Vidas" ) e depois fui procurar os mais antigos. Esta obra foi publicada, pela primeira vez, em 2004 e foi publicada a 2ª edição agora em 2011. Foi esta 2ª edição, ainda por cima autografada pelo autor, que eu acabei de ler há alguns dias. João Tordo é, na minha modesta opinião, um escritor brilhante. As situações que ele desenvolve e a maneira como resolve os impasses é admirável. Situações tão inverossímeis mas que ele torna perfeitamente possível. Este "O livro dos homens sem luz" está organizado como se tratassem de pequenas histórias que tem um fio condutor, a personagem principal é sempre um homem e todos eles vivem, de algum modo, na escuridão, escuridão da alma e mesmo escuridão física. Algumas situações são duras já que as descrições são muito "reais" e "palpáveis", a leitura destas histórias nem sempre foi fácil mas valeu a pena. João Tordo consegue escrever estas histórias tão diferentes mas que se encadeiam de maneira divinal. João Tordo é um nome a fixar, sem sombra de dúvida.

 

"A última vez que o vi caminhava até ao portão. Ao olhar para trás teve por certo a miragem de uma sombra sentada na cadeira de balouço, rodeada de fantasmas, antes de seguir o seu caminho. Quanto a mim, ainda estou aqui, mas julgo que por pouco tempo. Escrevo estas palavras num mês incerto de 1959, e faz muito frio esta noite. O vento corre de quarto em quarto, largando sons, movendo coisas de que não recordo a existência. A guerra terminou há anos, o mundo é um lugar diferente, e todos aqueles que amei desapareceram. Vejo-lhes o rosto, no entanto, em cada uma das estrelas cadentes que se abatem sobre a neve e, ao contar os raios de luz que atravessam o céu, como vestígios de coisas passadas, sei que sempre vivi na escuridão"

publicado por Charneca em flor às 23:29 link do post
25 de Abril de 2011

"Não tem conta as vezes que me disseram: Livro, posso ler-te? Rio-me dessa gracinha com o umbigo"

 

 

De há uns tempos para cá comecei a descobrir a literatura portuguesa mais contemporânea. Tenho lido muitos livros mas, realmente, costumo falhar nos autores portugueses, só li o meu primeiro livro do nosso Prémio Nobel há muito pouco tempo. Umdia li um artigo sobre dois autores da minha geração e, ambos, vencedores do Prémio Saramago e fiquei curiosa. Primeiro arrisquei no João Tordo e já li 2 ou 3 títulos dele.

Agora debrucei-me pela obra de José Luís Peixoto.Adquiri o "Livro" há algum tempo mas só o li agora. Dá que pensar que escritor é esse que tem a ousadia de dar o título de "Livro" a um livro seu. E a justificação para este título é tão inesperada que eu nunca adivinharia. O autor começa por descrever cenas da vida de uma aldeia do interior do país e atravessa várias épocas desde os anos 40 até aos anos 60. Algumas descrições são tão explicitas que até impressionam (até há um episódio que se tornou em mais uma razão para não comer papas de sarrabulho!). José Luís Peixoto mostra essa portugalidade já há muito esquecida e utiliza expressões e palavras deliciosas que eu já nem me lembrava que existiam.

A partir dos anos 60, a acção transfere-se para Paris já que um dos pontos centrais do "Livro" é a saga dos emigrantes portugueses por terras de França e depois também as várias vindas de férias ao país natal, as casas que constroem, os maços de notas nas mãos. Gostei muito desta parte já que corresponde à imagem que eu também tenho da emigração portuguesa dos anos 60 e seguintes. O contraste entre esta primeira parte do "Livro" e a segunda parte, bastante mais erudita, é fantástico como se a intenção fosse mostrar como as gerações foram evoluindo. Uma escrita que não é, de modo nenhum, linear e um livro que leva algum tempo a ler. É preciso ir digerindo a pouco e pouco mas gostei tanto que já estou a ler mais outro livro dele, desta feita um livro de contos com histórias, imagino eu, baseadas nas histórias de vida da sua Galveias natal.

 

"O momento de ligar a telefonia. Era uma máquina que impunha respeito. Quando se aproximavam dela, os homens metiam as mãos nos bolsos. Era impossível imaginar a quantidade de turbinas que existiam dentro daquela máquina estrangeira. Em vez de fazerem uma bomba, fizeram isto, pensava a velha Lubélia. O único homem que tocava na máquina, que a compreendia, era um indivíduo baixo, careca, que atendia ao balcão da Casa do Povo. Os seus dedos brancos, pouco sol, rodavam os botões da telefonia com uma elegância geométrica. A máquina uivava um gemido que se enfiava nos ouvidos, depois começava a rugir, depois afinava-se na voz de um locutor, a articular muito bem as palavras , a anunciar pastas de dentes, licores, e a apresentar artistas. A velha Lubélia consolava-se com o momento de ligar a telefonia. Seguia cada gesto e cada posição do homem que a ligava. À maneira de uma mulher de quase setenta anos, à sua maneira, desejava-o sexualmente."

 

 

Publicado originalmente nas Leituras da Stiletto

publicado por Charneca em flor às 18:46 link do post
28 de Março de 2011

 

Este é já o segundo livro que leio de Madeline Hunter. O primeiro foi "Jogos de Sedução".

A acção passa-se no século XIX e tem como pano de fundo as relações comerciais, mais ou menos legais, entre a Inglaterra e o Oriente, abordando até o tráfico de ópio e a destruição que o ópio provoca na vida de quem se lhe entrega. As personagens principais, Christian e Leona, conhecem-se em Macau onde se apaixonam mas são obrigados a separarem-se. Ao fim de 7 anos voltam-se a encontrar, em Londres, onde revivem as emoções vividas no Oriente. No entanto, há muitas coisas que os separam uma vez que Leona vai para Londres para estabelecer relações comerciais mas também para se vingar de quem levou o seu pai à morte.

Madeline Hunter faz um brilhante relato histórico e descreve os encontros entre Christian e Leona com uma grande carga sensual como já acontecera na outra obra dela a que faço referência. Ainda mais, neste "Os pecados...", a sensualidade ainda traz um toque do exotismo do Oriente. Como diz na sinopse:"Uma viagem no tempo até uma era marcada por escândalos, intriga e desejos secretos..."

 

"Silêncio. Calma. A respiração dele a sintonizar-se com um ritmo mais amplo na escuridão. Sem tumulto. Sem ânsias. Um estado de suspensão do ser procurando formar-se e crescer...

O centro não iria aguentar-se. Em vez disso, insurgiu-se uma lembrança, mais vívida do que seria natural. As imagens moveram~se na obscuridade da sua mente. De repente, estava de regresso a Macau, numa noite perfeita...

Cores a tremeluzir num luar de prata. Odor a flores de lótus vindo da lagoa próxima. Lâmpadas que brilhavam tenuamente no interior das casas, para além das paredes de estuque. Ruídos silenciosos que vinham ao seu encontro, misturando-se com os sons da noite.

 (...)

 Um som. Não do tipo silencioso, mas um ruído humano normal. Passos, respiração e um murmúrio débil e feminino.

Subitamente, ela estava ali, no trilho à sua frente. Viu-o e deteve-se. A camisa de noite alva brilhava sob a faixa escura do seu longo xaile de seda. O cabelo escuro encobria-a. A pele parecia cintilar sob a luz da lua.

O desejo tomou imediatamente conta dele, tal como sempre acontecia junto dela. Vê-la era a faìsca necessária para fazer com que a chama do seu desejo ardesse descontroladamente."

 

Originalmente publicado aqui

publicado por Charneca em flor às 19:42 link do post
13 de Março de 2011

 

Nunca tinha lido nada de José Eduardo Agualusa embora, de algum tempo para cá, tenha alguma curiosidade pelos escritores africanos como Agualusa ou Mia Couto. Comecei a ler a medo mas foi uma boa aposta. O livro não é muito grande (184 páginas apenas) e lê-se muito bem desde que se leia com disciplina e atenção já que não se trata de um relato linear. Capítulos do enredo alternam com capítulos que contam lendas africanas, relatos de sonhos e histórias longinquas no tempo. Agualusa escreve de uma maneira muito divertida. O fulcro desta história é a pesquisa de novas palavras, neologismos, na língua portuguesa. Nesta busca acompanhamos o percurso de Iara, uma jovem linguista portuguesa, à procura da origem destes neologismos. Iara conta com a ajuda de um velho professor angolano e anarquista. Como diz na sinopse, "Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando."

Tendo em conta o cenário actual da língua portuguesa, com o tão falado Acordo Ortográfico, esta história prova que uma das riquezas da língua portuguesa é a sua diversidade, as várias maneiras de falar português em Portugal, nos vários países africanos ou no Brasil. A meu ver, este (des)Acordo vai retirar inocência à nossa língua obrigando-nos a escrever todos da mesma maneira. Não sei se Agualusa escreveu esta história a pensar nestas discussões sobre o Acordo mas foi isso que eu li nas entrelinhas e essa conclusão é da minha responsabilidade, evidentemente.

 

"Volto a estudar a lista. Vinte e três palavras, todas elas polidas e perfeitas, lúcidas, evidentes, e - sobretudo - imprescindíveis.

São palavras tão familiares, ou melhor, soam tão familiares, que não parecem neologismos, diz-me Iara. As pessoas ouvem-nas, e ficam convencidas de que sempre as utilizaram."

 

"Levou-o este necromante à Vila de Massangano, onde o apresentou a uns pássaros de voo lento e trabalhoso, forte penagem verde e azul, e uma crista púrpura na cabeça, à maneira do solidéu dos cardeais, mostrando-se tais pássaros muito àgeis nos pensamento e hábeis no falar. A partir de várias conferências com os referidos pássaros doutores, que os nativos chamam onduvas, reuniu Moisés da Conceição uma colecção de palavras extravagantes, de muita serventia, segundo me confidenciou o índio Mariano, para a boa iluminação das nações que habitam este país e, mais do que isso, da natureza da vida e dos seus maiores."

 

Post publicado originalmente em Leituras da Stiletto

publicado por Charneca em flor às 21:33 link do post
23 de Fevereiro de 2011

 

Este é um livro especial. Primeiro que tudo porque é uma história verídica e porque foi comprado na livraria da Casa-Museu Anne Frank, em Amsterdão, depois de ter passado pelo anexo secreto onde Anne viveu dos 13 aos 15 anos. Quando cheguei à livraria estava muito emocionada já que terminei a visita com um nó na garganta e com lágrimas nos olhos. Na parte final da visita, é projectado um filme em que Otto Frank, pai de Anne Frank e o único que sobreviveu ao Holocausto, diz que só conheceu, verdadeiramente, a filha quando leu o seu diário. Percebe-se pelo seu testemunho que ele encontrou um sentido para a sua vida ao lutar para publicar o diário e para criar aquela Casa-Museu como espaço de encontro e de reflexão para todos, independentemente da raça, cor, língua ou religião, um espaço de paz e concórdia.

 Qual não foi o meu espanto encontrei esta versão escrita em português. Esta versão é chamada definitiva porque inclui algumas passagens que tinham sido omitidas nas primeiras edições por vontade de Otto Frank. Estas passagens contêm alguns comentários relativos à mãe que Otto não tinha querido divulgar. 

Muitas pessoas terão lido este livro na adolescência ou terão visto o filme. Eu não, embora já tivesse ouvido falar, por alto, na história de Anne Frank.

O Diário conta os 2 anos que a família Frank, com mais algumas pessoas, passou num pequeno anexo do antigo escritório de Otto Frank. A família refugiou-se aí para tentar escapar às perseguições anti-semitas levadas a cabo durante a 2ª Guerra Mundial. Anne descreve o espaço ao qual estavam confinados, o tipo de alimentação que eram obrigados a fazer, as privações e dificuldades a que estavam sujeitos. Para além disso percebe-se que Anne não deixou de ser uma adolescente como as outras, com os mesmos conflitos, as mesmas dúvidas, as mesmas revoltas e os mesmo anseios. É doloroso ler os planos que ela fazia para o futuro quando sabemos que ela, apesar de todos os riscos e sacrifícios que passaram, acabou por morrer num campo de concentração. Algumas entradas do Diário são de uma tal profundidade que custa a acreditar que tenham sido escritos por uma pessoa tão jovem. Obviamente que as circunstâncias a obrigaram a crescer já que passou por coisas que nunca ninguém deveria ter passado só porque o acaso a fez nascer no seio duma família judia. Um dos livros da minha vida, sem dúvida.

 

                                                                                                                                                                                                                                                   "Espero poder confiar-te tudo, como nunca pude confiar em ninguém, e espero que venhas a ser uma grande fonte de conforto e apoio", 12 de Junho de 1942

 

 

"Estamos todos vivos, mas não sabemos porquê ou para quê; todos procuramos a felicidade; todos levamos vidas que são diferentes e, contudo,  iguais. Nós os três fomos criados em boas famílias, temos oportunidade de adquirir uma educação e fazer algo pela nossa vida. Temos muitas razões para esperar uma grande felicidade, mas ... temos de a merecer. E isso é algo que não se consegue escolhendo a saída mais fácil. Merecer a felicidade significa fazer o bem e trabalhar, não especular e ser preguisoço. A preguiça pode ser convidativa, mas só o trabalho pode dar uma verdadeira satisfação", 6 de Julho de 1944

 

 

 

Post publicado originalmente aqui

publicado por Charneca em flor às 09:11 link do post
15 de Fevereiro de 2011

 

Às vezes leio dois livros ao mesmo tempo. Desta vez senti necessidade de ler um livro mais "leve" enquanto lia "O Diário de Anne Frank" já que este é um livro muito duro a nível emocional. Candace Bushnell tornou-se conhecida pela sua crónica "O Sexo e a Cidade" no New York Observer que deu origem ao livro, à série e aos 2 filmes. Este livro tem um protagonista principal e umas quantas personagens secundárias. O protagonista é o edifício situado no nº 1 da 5ª Avenida. Esta avenida é uma das mais caras avenidas de Nova Iorque. O edifício é mais do que o cenário, parece fazer mesmo parte da história. Todas a personagens ou vivem nesse sítio, ou na sua proximidade ou então desejam lá viver. Candace conta várias histórias e em todas elas aborda a ambição, o poder, a relação das várias pessoas com a cidade, a jovem que quer subir na vida, a mulher de meia idade que não conseguiu realizar tudo o que desejava, os novos ricos que construiram a fortuna na Bolsa à custa da gestão de fundos de alto risco e por aí fora. Um retrato da sociedade actual incluindo a grande influência da Internet na vida das pessoas e como aquilo que se escreve online permanece para sempre. Um livro que distrai e faz sonhar...
 
"Billy Litchfield passava em frente ao nº 1 da Quinta Avenida pelo menos duas vezes ao dia. Em tempos fora dono de um Wheaten terrier oferecido pela Srª Houghson, que criara cães dessa raça na sua propriedade junto ao Hudson. Wheaty precisava diariamente de ser passeado duas vezes em Whashington Square Park e Billy, que vivia na 5ª Avenida,a norte do nº1, desenvolvera nessa altura o hábito de passar pelo edifício como parte do seu passeio diário. Era uma das suas referências, um sumptuoso edifício construído em pedra de um cinza-claro e de linhas clássicas condizentes com o estilo art déco,e Billy, a meio caminho entre o novo milénio e as tradições de outrora. « Não importa onde se mora desde que seja um lugar decente». dizia para si mesmo, embora ansiasse viver no nº1.Alimentara essa pretensão durante trinta e cinco anos, mas o seu desejo continuava por cumprir."
Publicado originalmente aqui
publicado por Charneca em flor às 08:52 link do post
11 de Novembro de 2010

 

Este já é o segundo livro que leio do João Tordo. O primeiro foi o "Três Vidas", romance premiado com o Prémio Literário José Saramago. A mim parece-me que foi prematuro atribuir o prémio naquela altura. "O Bom Inverno" é muito melhor do que o "Três Vidas". João Tordo conta histórias fabulosas e verdadeiramente surpreendentes desde às personagens, ao enredo, às soluções que ele arranja quando a história está muito complicada para desenrolar a trama. A história gira em torno de um escritor frustado e hipocondriaco que, depois de participar numa conferência de literatura em Budapeste, viaja até à Itália e envolve-se involuntariamente numa assustadora "história carregada de suspense, em que o amor e a literatura se misturam com sexo, crime e metafísica". João Tordo está a tornar-se um caso sério da literatura portuguesa da actualidade.


Só para abrir o apetite:

 

"Pusemos o homem dentro do cesto do balão e deixámo-los desaparecer no céu pálido do Lácio. Foi um momento dramático e, se não houvéssemos caído naquele torpor pesado e ruminante que de nós se aporedou, alguém teria erguido um braço para, por entre lágrimas ou sorrisos, acenar um último adeus a Don Metzger. Foram precisos oito braços para tranportar o corpo do carro até à gôndola de verga, junto da qual o sinistro Bosco havia, com a ajuda do fiel Alípio, insuflado de ar frio o envelope de nylon preto, a grande ventoinha ensurdecendo aquele dia tão fúnebre. Acomodámos Don denro da gôndola o melhor que pudemos - tanto quanto era possível acomodar um gigante - e depois, com um gesto de amor que chegou a parecer cruel, Bosco abriu a válvula de propano e acenceu o maçarico, as chamas incendiaram o ar e ergueram a gôndola do chão como se a carregassem na palma de uma mão invisível. Era ainda muito cedo naquela manhã e Donjá partia em direcção ao ininito, onde conjuntos de nuvens em vários tons de cinzento, banhadas por um sol melancólico, avançavam lentamente em direcção à montanha, sobrevoando-a como anjos coléricos que trouxessem o prenúncio de tempos terríveis."
Este post foi publicado, originalmente, no blog "É possível ser feliz..."
publicado por Charneca em flor às 00:35 link do post
28 de Setembro de 2010

 

A primeira vez que ouvi falar de João Tordo foi no programa "Ping Pong Top", do canal Q, o canal das oduções Fictícias. João Tordo deu uma entrevista bem divertida a Patrícia Muller e a Hugo Gonçalves falando do novo livro "O Bom Inverno". Como fiquei curiosa fui descobrindo várias coisas, João Tordo é filho do cantor Fernando Tordo, nasceu em 1975 e ganhou o Prémio José Saramago 2009 com este romance "As três vidas", o seu terceiro romance. João Tordo representa uma nova geração de escritores e é, nas suas próprias palavras, "um gajo que conta histórias" (na revista Visão). João Tordo é um excelente e imaginativo contador de histórias. "As três vidas" é um romance repleto de mistérios que se vão desenrolando ao longo de muitos anos, atravessando períodos marcantes da História do século XX e do ínicio do século XXI. A imaginação do autor surpreende-nos a cada página e, quando não conseguimos perceber como ele vai desenrolar o novelo da história, eis que surge uma solução inacreditável. O narrador é um jovem secretário, sem nome, que começa a trabalhar com o misterioso António Augusto Milhouse  Pascal. Durante muito tempo não consegue compreender qual é o trabalho que o patrão executa. Sempre presente está Artur, o jardineiro e motorista, quase tão misterioso como Milhouse Pascal. Os clientes, que são ricos, perigosos e loucos vêm e vão. O conhecimento que o jovem trava com os netos de Milhouse Pascal influenciará o seu discernimento e as suas decisões. Uma história que diicilmente  se consegue deixar de ler...

 
"Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo. Esses anos, que considero terem sido excepcionais - e, ocasionalmente, marcados por acontecimentos funestos -, deixaram-me num estado de melancolia crónica no qual, embora dele tenha procurado escapar, acabo inevitalmente por voltar a cair. (...) Bastará dizer que não recordo um tempo em que a vida tenha sido particularmente eliz, mas que sou incapaz de esquecer cada hora que passei na companhia de António Augusto Milhouse Pascal"
"Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar - e fazer-vos acreditar -que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão um dia encontrar a sua resposta: estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação"
Publicado originalmente aqui
publicado por Charneca em flor às 23:48 link do post
09 de Setembro de 2010

Este livro fez parte de uma das colecções da Biblioteca Sábado e andava aqui por casa há muito tempo. Quando fizemos as malas para "As quatro capitais da Europa Central", também lá ia mas, na verdade, só lhe peguei quando voltei. Ler o "Danúbio" foi uma maneira de ir prolongando, por mais uns dias, as deambulações pelo centro da Europa. O rio Danúbio é o segundo rio mais longo da Europa tendo cerca de 2800 km de extensão, cruza vários países e passa por 4 capitais, Viena (Aústria), Bratislava (Eslováquia), Budapeste (Hungria) e Belgrado (Sérvia) e por muitas outras cidades importantes.
O autor, Cláudio Magris, nasceu em Trieste (Itália) em 1939 e licenciou-se como germanista na Universidade de Turim. Para além de ser docente na Universidade de Trieste, é ensaiasta e colunistas em vários jornais. "Danúbio" de 1986 foi considerada a sua obra-mestra sendo considerado um dos mais importantes escritores italianos contemporâneos. A sinopse desta obra diz assim:

 

"Nos anos 80, Cláudio Magris realizou uma viagem seguindo o rio Danúbio. Ao longo de um percurso que atravessa a Alemanha, a Áustria, a Hungria, as antigas Checoslováquia e Jugoslávia, a Roménia e a Bulgária, o autor alterna o relato de episódios significativos com descrições da paisagem física e cultural, até formar uma malha de ideias que aproxima esses países num espaço comum. Neste périplo misturam-se o ensaio, o romance, o diário e a literatura de viagens, e aparecem paisagens, paixões, encontros, reflexões... Uma viagem "sentimental" em que Magris explora o conceito da Mitteleuropa fundamental para a compreensão da cultura europeia"

 

Este livro foi uma experiência de leitura muito diferente daquilo que eu estou habituada. Em vez de ter uma história como linha condutora, a linha condutora é o próprio rio e a relação das cidades, dos intelectuais, dos que estão de passagem ou dos locais, com o rio. A viagem que o autor empreende começa na Floresta Negra e segue até ao delta onde o rio se junta com o Mar Negro. Mais do que uma viagem física ou sentimental, a verdadeira viagem é intelectual já que vamos descobrindo todos os autores que já escreveram sobre o Danúbio ou que foram influenciados pela proximidade com o rio nas suas obras. Não foi um livro fácil de ler mas valeu a pena acompanhar Cláudio Magris nesta viagem, quase como se fizesse um cruzeiro no Danúbio...

 

 

Post publicado originalmente no É possível ser feliz...

publicado por Charneca em flor às 14:41 link do post
04 de Junho de 2010

 

Como diz no subtítulo, este livro conta a história de coragem de uma infanta portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra. Catarina nasceu filha de um duque mas, aos dois anos, tornou no rei de Portugal, D. João IV. Cresceu num país em turbulência e lutando para manter a independência. Chorou a morte de entes queridos. Sonhou com o homem que lhe estava destinado e apaixonou-se sem sequer o conhecer. E em vez de viver uma linda história de amor, sofreu muitas desilusões mas nunca deixou de o amar.
Sinopse:
"Com 23 anos a infanta Catarina de Bragança, filha de D. Luísa de Gusmão e de D. João IV, deixou para trás tudo o que era querido e próximo para navegar rumo a uma vida nova. No coração um misto de tristeza e alegria. Saudades da sua Lisboa, de Vila Viçosa, do cheiro a laranjas, dos seus irmãos que já tinham partido deste mundo e dos ficavam em Portugal a lutar pelo poder. Mas os seus olhos escuros deixavam perceber o entusiasmo pelo casamento com o homem dos seus sonhos, Charles de Inglaterra, um príncipe encantado que Catarina amava perdidamente ainda antes de o conhecer.
Por ele sofreu num país do qual desconhecia a língua, os costumes e onde a sua religião era condenada. Assistiu às infidelidades do marido, ao nascimento dos seus filhos bastardos enquanto o seu ventre permanecia liso e seco, incapaz de gerar o tão desejado herdeiro. Catarina não conseguiu cumprir o único objectivo que, como mulher e rainha, lhe era exigido. Se ao menos não o amasse tanto!, pensava nas noites mais longas e tristes..."
Isabel Stilweel conduz-nos ao longo da vida desta mulher pequena em estatura mas grande em coragem e força. A autora faz-nos sentir as alegrias e as dores de Catarina como se fossem nossas. Um maravilhoso romance histórico...
Também publicado aqui
publicado por Charneca em flor às 23:31 link do post
18 de Maio de 2010

Esta história é uma história de amor mas vai muito além da simples história que se encontram e apaixonam. Para começar as suas origens são muito diferentes. Xénia Ossoline é russa, Max von Passau é alemão e conhecem-se em Paris. Como pano de fundo á sua história descobrimos os mais marcantes acontecimentos da primeira metade do século XX, a Revolução Bolchevique, a Alta-Costura dos anos 20, a ascenção de Hitler, a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto...

Xénia vê o seu mundo desmoronar devido à Revolução Bolchevique, é obrigada a fugir de Sampetersburgo e a refugiar-se em Paris. A sua vida é uma incansável luta pela sua sobrevivência e da família que lhe resta. Max é filho de um barão e, contra a vontade do pai, torna-se fotógrafo. Mais tarde, quando começa a perseguição aos judeus e a Segunda Guerra Mundial, Max faz parte dos alemães que se juntam à Resistência.

O seu primeiro encontro é em Paris mas reencontram-se em Berlim quando Xénia já é modelo. O amor que vivem é tumultuoso tal como os tempos atribulados que os rodeiam e é cheio de encontros e desencontros. Xénia, oprimida pelo sofrimento que já passou, nunca é capaz de se entregar completamente.

O enquadramento histórico ajuda-nos a perceber o horror da guerra, da xenofobia e do fanatismo.


"- Amo-te, Xénia.
E foi como uma dilaceração no coração da jovem, um soluço abafado, o perpassar de uma asa negra. o amor de um homem é algo de magnífico e de aterrador ao mesmo tempo, pois traz consigo a aspereza da esperança, as dores da infância, o fardo de um passado, as traições e os sonhos não satisfeitos, e todas as miragens, as auroras esperadas, as certezas."

"Auschwitz-Birkenau, Janeiro de 1945

O general soviético Igor Kunine avançava pelo meio das planícies e dos pântanos da Alta Silésia sem compreender o espectáculo que se encontrava aos seus olhos. Ninguém o prevenira. Fora o acaso que os conduzira até ali, ele e os seus homens. E sentia a estranha impressão de que o corpo e o espírito se tinham dissociado (...) O seu corpo caminhava entre barracões escuros no meio de uma luz opalescente da qual surgiam seres de olhar vazio, de vestes ás riscas esfarrapadas, descalços, que o observavam sem proferir uma palavra."
 
 
Publicado, originalmente em "É possível ser feliz..."
publicado por Charneca em flor às 21:52 link do post
23 de Abril de 2010

 

Quando comprei o meu televisor LCD, o primeiro filme que vi foi o filme adaptado deste romance. Tem imagens chocantes, é verdade, mas tem também imagens maravilhosas des campos floridos e verdejantes, de serras e vales quando Jean-Baptiste Grenouille viaja atravésda França e logo decidi que iria ler o livro logo que possível. A história passa-se no séc. XVIII e o autor consegue reconstruir muito bem o ambiente histórico e social da altura. O protagonista tem um dom invulgar, um olfacto mais apurado do que qualquer pessoa e através desse olfacto que contacta com o mundo. Assim torna-se perfumista e persegue o sonho de criar o melhor perfume do mundo, um perfume que contenha a essência da Beleza. Grenouille é completamente amoral, foi criado sem amor, a mãetentou matá-lo à nascença pelo que foi presa e condenada à morte. Ele é uma criança estranha e vai crescendo sempre como um estranho, tem uma particularidade, não exala aroma nenhum o que o torna praticamente invisível aos outros. O seu sonho leva-o a cometer crimes hediondos mas a sua pureza, como se fosse uma eterna criança, fascina-nos. As descrições das perfumarias, as técnicas de execução dos perfumes, a viagem são maravilhosas e transportam-nos para aquela altura da História.
 

"Baldini se encontrava ainda a manipular os candelabros pousados na mesa; Grenouille já tinha deslizado até aos recantos sombrios do atelier, onde se localizavam as prateleiras a abarrotar de essências,óleos e extractos preciosos, delas seleccionando os frascos que precisava, guiado pelo seu faro infalível. Eram nove ao todo: essência de flor de laranjeira, óleo de lima, óleos de cravo e de rosa, extractos de jasmim, de bergamota e de rosmaninho, tintura de almíscar e de bálsamo de estoraque. Apressou-se a retirá-los das prateleiras e a dispô-los na beira da mesa. A terminar, arrastou até aos pés da mesa um garrafão com espírito de álcool altamente concentrado. Foi colocar-se depois atrás de Baldini que ainda continuava a dispor os instrumentos com uma minúcia pedante, deslocando ao de leve um instrumento aqui, outro mais adiante, a fim de que tudo apresentasse segundo o bom e velho método tradicional e ressaltasse ante a luz dos candelabros. Esperou, trémulo de impaciência, que o velho saísse de onde estava e lhe desse lugar."

 

"Dava-se então ao luxo de repousar um instante com a consciência tranquila. Distendia-se fisicamente e tanto quanto lhe era possível neste reduzido espaço de pedra. Interiormente, porém, nos espaços então limpos da sua alma, estiraçava-se indolentemente, gozando toda a embriaguez causada pelo esvoaçar dos odores mais subtis junto ao nariz: por exemplo, um ligeiro sopro perfumado , como se tivesse flutuado sobre os prados primaveris; um vento morno de Maio, soprando por entre as primeiras folhas, que coloriam as faias de verde; uma brisa marítima, com o sabor acre a amêndoas salgadas."
 
Ao lermos "o Perfume" parece que vamos também sentido, tenuamente, os mesmos cheiros, odores, aromas que Grenouille.

 

 

E hoje, Dia Internacional do Livro, peguem num livro e abandonem-se à fantasia e ao sonho. Boas leituras...

 

 

Post publicado, originalmente, no blogue É possível ser feliz...

publicado por Charneca em flor às 08:21 link do post
13 de Março de 2010

 

Quando vi este livro no escaparate não podia deixar de o comprar. Richard Bach é o autor de alguns dos livros que marcaram a minha vida, Fernão Capelo Gaivota e Ponte para a Eternidade, por exemplo. Ainda por cima havia a frase da capa... O livro que vai mudar a sua vida!  E tinha muitas saudades de o ler. Richard Bach é piloto e voar sempre foi um dos temas centrais das suas histórias. O hipnotizador de Maria começa com a personagem Jamie Forbes no seu avião quando ouve, no rádio, um pedido de socorro. Uma mulher viajava com o marido, piloto, que desmaia. Jamie falando com ela, ajuda-a a aterrar. A mulher, Maria, tem dificuldade em perceber como conseguiu aterrar o avião e diz aos jornalistas que ele a hipnotizou. Jamie, ao ler estas declarações, no jornal recua alguns anos e lembra-se de uma experiência de hipnotismo que influenciara a sua vida. Um estranho encontro num aeroporto leva-o a olhar para a vida de uma maneira completamente diferente.
 
"...livres para acreditar que somos agora espírito, não sujeitos a limites mortais e a leis impossíveis de transgredir...As convicções dos outros não afectam a minha vida, se não forem também minhas, pensou.
Assim que nos convencemos de que somos espírito, atravessamos paredes, somos invulneráveis, deixamos de acreditar em acidentes, tempestades, doenças, idade, guerra..."
 
Somos donos da nossa própria vida...
 
Afinal este livro não mudou a minha vida mas fez-me pensar... E Richard Bach consegue sempre fazer-nos pensar...

 

 

Este post foi publicado originalmente em É possível ser feliz...

publicado por Charneca em flor às 10:29 link do post
21 de Fevereiro de 2010

Já vai para mais de um ano que comprei este livro. O título chamou-me a atenção e também aquelas letras pequeninas, "a isto chama-se amor". No resumo dizia "Este livro não conta senão uma história de amor entre quatro pessoas zangadas com a vida: Camille, Franck, Philibert e Paulette. São quatro fósforos colocados por cima de uma chama que, de repente, ardem juntos." Achei muito bonito. Li meia dúzia de páginas, achei-o muito aborrecido e logo o deixei de parte. Aqui há umas semanas voltei a pegar nele. E li-o de fio a pavio. Não consegui largá-lo. Na verdade nem sempre estamos preparados para entender e interiorizar uma história. Quando o comprei não estava preparada mas agora a história entrou-me na alma e adorei. Descobri depois que este livro foi considerado um dos melhores livros de 2005 em França e o romance preferido pelos franceses nesse ano. É sem dúvida uma maravilhosa história de amor entre pessoas muito diferentes que se encontram por acaso, se ajudam mutuamente porque são as diferenças que os unem e os tornam mais fortes.

 

Publicado originalmente no É possível ser feliz.... a 15 de Janeiro de 2009

publicado por Charneca em flor às 00:28 link do post
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